Resenhas
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Olá pessoas, em dezembro de 2019 eu e meu amigo Felipe Gomes gravamos, editamos e postamos no Spotify um episódio de nosso podcast RockStudio sobre o, até então, último álbum de estúdio gravado pelo Rammstein autointitulado, após 10 anos sem lançar álbuns de estúdio inéditos. Hoje, quatro anos depois, o Rammstein lançou um novo álbum de estúdio chamado "Zeit", do qual infelizmente não poderei gravar um podcast sobre, uma vez que o RockStudio não existe mais em decorrência da impossibilidade de agendas. Mas, como não poderia deixar de falar a respeito do novo álbum da, talvez, mais notável banda de metal da atualidade, não só por suas performances ao vivo dignas de um espetáculo da Broadwey ou do Cirque du Soleil, como também por suas letras expressivas trazendo reflexões a respeito de temas contemporâneos e universais.
P.S.: A, e semana que vem tem resenha do álbum novo do Ghost, Impera, também. Então fiquem ligados.
"Zeit" de Rammstein é uma reflexão sobre existencialismo
Foto promocional do álbum
Sidarta Gautama, o buda original, certa vez disse que a vida é dukkha, que em páli quer dizer sofrimento. Até hoje muito se fala a respeito da mensagem de Buda. "-Ah... os monges falam sobre libertar-se do sofrimento mas a própria vida é sofrimento, pois como já dizia Nietzsche: 'Amamos o desejo, não o desejado'", mas a verdade é que, quando Sidarta Gautama falou sobre dukkha, ele se referia a impermanência das coisas e ao apego. A vida é como uma roda, o mundo gira, as coisas mudam e é preciso aprender a lidar com os sentimentos para não se tornar um refém dos desejos. No mundo em que vivemos hoje, a velocidade de informação e dinamismo nas relações humanas a qual Bauman vai chamar de 'modernidade líquida', gera muita insegurança e incerteza nas novas gerações, em comparação às gerações passadas, que tinham certezas em quase todos os campos da existência humana. Essa insegurança leva as pessoas à ansiedade e, consequentemente, a intoxicação por medicamentos em decorrência do desejo de não lidar com o sentimento da tristeza. A tristeza é diferente da depressão. Depressão é uma doença seríssima e que precisa de tratamento. Tristeza é um sentimento que vem e passa com o tempo: "-Perdi meu cachorro", "-Não passei na prova", "-Terminei com a namorada", isso gera tristeza. A depressão é ter a tristeza não como um sentimento tão natural quanto a alegria em reação a um acontecimento bom, mas como o status quo, podendo ter até picos de alegria ao ouvir uma piada, mas ao partir essa alegria momentânea não retornar a um estado blasé, mas à mais pura tristeza. Esse é o tema de "Armee der Tristen", canção que abre o álbum, que em alemão quer dizer "Exército dos tristes". A tristeza se tornou uma moda, pois basta estar triste para achar que tem depressão e, quando um triste acessa uma comunidade de tristes nas redes sociais, ele reforça através do sentimento primitivo de pertencimento a um grupo, a um bando, pois nos tempos das cavernas os homens que ficavam para trás morriam, e na tristeza, por mais irônico que possa parecer, algumas pessoas encontram sentido para viver, pois como já dizia o próprio Nietzsche, também: "Aquele que tem razão para viver pode suportar quase tudo".
"Armee der Tristen" tem as caractéristas guitarras arrebatadoras de Richard Kruspe e Paul Landers, mas o que se destaca mesmo nesta canção é o sintetizador de Christian Lorenz (Flake) que, por volta dos dois minutos de música, sola, ao melhor estilo metal dos anos 80 misturado ao poderoso metal industrial alemão. Após "Armee der Tristen", se inicia a lindíssima "Zeit", com seus coros e piano, esta canção é uma das mais inspiradas baladas compostas recentemente. "Zeit" vem do latim tempus,que significa divisão. Os gregos usavam a palavra dayate para cortar, dividir e daiesthai para porção, partilha, provavelmente esta é a etimologia da palavra latina tempus, da qual veio o italiano e português tempo, o espanhol tiempo, o francês e catalão temp, em um primeiro momento, o inglês arcaico tide ou tid e ao alemão arcaico tit, que substituiu o t pelo z, que em alemão tem som de ts Essa é a origem da palabra zeit, que em alemão quer dizer tempo. Tempo é a divisão, partilha, separação do "cronos", que para os gregos era o tempo que pode ser medido ou "cronometrado", em antonomia à palavra kairós, que é o tempo que não pode ser cronometrado, que não pode ser medido, como por exemplo, o tempo de vida de uma pessoa viva. Esse é o tema da canção que nomeia o novo álbum do Rammstein, a passagem do tempo, a falta do mesmo ou até a perda de, e como nossa relação com a quarta dimensão nos afeta. No refrão Till Lindemann (que aliás, tem uma ótima atuação nesta canção) suplica: "por favor pare tempo, pare", mas como já dizia nosso poeta Cazuza: "o tempo não para".
Video clipe de "Zeit"
"Schwarz" tem mais um belo solo de Flake, que não está para brincadeira nesse álbum, que se mostra extremamente melancólico enquanto aborda temas relacionados a existência humana, niilismo e fuga da realidade. Fuga da realidade, aliás, que é o tema desta canção, abordando a maneira como as pessoas levam a vida tendo a prática do hedonismo como meio de obter um prazer imediato e passageiro, porém sem sustentação ética aprofundada. Como diz o historiador e filósofo Leandro Karnal: "somos uma geração de entediados".
"Giftig", ao contrário de "Schwarz" e "Zeit", não é uma canção lenta, pelo contrário, aqui a banda traz de volta o peso do seu tradicional metal industrial com o poderoso baixo de Oliver Riedel ditando o ritmo da canção que fala sobre a tendência autodestrutiva do ser humano. "Zick Zack" também tem esse peso característico do Rammstein, mas o tema aqui é a estética e uma questão muito antiga, velha conhecida dos filósofos: a beleza é objetiva ou subjetiva? No vídeo clipe desta canção vemos várias referências, não só a estética glam metal dos anos 80, como também à brasileira Jessica Alves, que ficou conhecida na Alemanha e na Inglaterra como "Ken Humano", quando ainda era homem atendendo pelo nome de Rodrigo Alves, após passar por diversos procedimentos de cirurgia plástica. Há duas entrevistas disponíveis no Youtube, sendo uma de Rodrigo, pré-cirurgia de resignação sexual, no programa The Noite com Danilo Gentili no sbt e, mais recentemente, de Jessica já mulher trans no Inteligência Ltda. com Rogério Vilela. Uma das coisas mais notáveis ao comparar as duas entrevistas é a maneira como Rodrigo se portava como uma personagem o tempo inteiro, demonstrando insegurança em se revelar ao público com sua personalidade original, enquanto, por mais irônico que possa parecer, após uma cirurgia tão violenta quanto a de mudança de sexo, Jessica parecia durante a entrevista uma pessoa muito mais natural que Rodrigo. Cabe então a reflexão: Se não vivêssemos uma sociedade de valores conservadores e insatisfação estética gerada pelo apelo do consumismo exacerbado Rodrigo precisaria passar por tantos transtornos físicos e psicológicos para se encontrar em Jessica?
Video clipe de "Zick Zack"
Em um primeiro momento "Ok" pode parecer uma concordância anglófila, mas no título da sexta faixa do álbum "Zeit" do Rammstein, "O.K." é uma sigla para ohne kondom, que em alemão, quer dizer "sem camisinha". Chega a ser cômico a forma como essas palavras são recitadas por um coro de música gregoriana, como se fossem um louvor em latim. O coro logo dá lugar a um rif rápido, transformando a música quase em um hardcore, na canção que aborda a problemática de muitas pessoas se arriscarem a ter DSTs pela falta de uso de preservativo.
"Meine Tränen" é uma das mais sombrias canções desse álbum. Não só pelo seu instrumental que, assim como "Zeit", é extremamente melancólico, como também pelo seu conteúdo, que aborda uma família disfuncional onde uma mulher matou seu marido e abusa psicológica e fisicamente de seu filho, que se mostra incapaz de reagir. Já "Angst" lida com um tema mais universal, a questão do preconceito. A Alemanha é um dos países que mais recebe imigração na Europa e, junto com, cresce o neonazismo e movimentos reacionários. É uma estratégia do preconceito lidar de forma demonizada com aquilo que é diferente ou estranho. Em "Angst" o eu lírico diz às crianças: "comportem-se bem, caso contrário o homem negro virá para pegá-las", gerando temor e, consequentemente, formando no carácter da criança o sentimento de rejeição. Do ponto de vista musical, talvez essa seja a canção mais "rammstein" do album, remetendo ao tecnoindustrial e neue deutsche härte dos primeiros álbuns. E para quem estava achando os últimos vídeo clipes tranquilos demais, "Angst" ganhou um que faz jus a fama da banda alemã de produzir vídeo clipes bizarríssimos.
Video clipe de "Angst"
É impressionante como o Rammstein passeia entre a tragédia e a comédia com extrema facilidade. Apesar da introdução instrumental leve que remete a música do começo do século XX, "Dicke Titten" começa com o eu lírico desabafando sobre sua solidão e do quanto ele gostaria de ter uma parceira. Devido ao conteúdo do álbum até aqui carregado e sombrio, a canção parece levar para mais uma reflexão sobre existencialismo e solidão, mas somos confrontados no refrão da música com a exigência do protagonista em relação a sua onírica parceira: ela não precisa ser bonita nem inteligente, mas é de extrema necessidade que tenha seios fartos. A forma cômica como Till interpreta o refrão chiclete da música construiu para tornar a experiência mais engraçada.
Contrastando totalmente com "Dicke Titten", "Lügen" (mentiras em alemão) é uma canção tão melancólica que remete às destrutivas canções de grunge do começo dos anos 9o, como "Creep" do Radiohead, trazendo sentimentos como culpa e martírio a tona. Para quem considera o metal industrial um estilo de pouco feeling, "Lügen" demonstra em seu instrumental e ritmo uma carga emocional poderosa, que se intensifica por mais uma interpretação genial de Till Lindemann. O álbum fecha com "Adieu" em um clima de despedida que fez muitos fãs da banda temerem se tratar de uma despedida da banda, sendo essa sua última canção. Mas, por enquanto, prefiramos tratar a letra mais como uma metáfora para a morte em um álbum que tem o tempo como tema central. Afinal, como diz a própria letra da canção, nada dura para sempre, exeto a morte.
Após o excelente autointitulado de 2019, o Rammstein nos presenteia com mais uma obra-prima, um álbum com temas fortes, reflexivos e musicalidade intensa e criativa carregada de emoção e boas interpretações por parte dos músicos.
Ficha técnica
Lançamento: 29 de abril de 2022
Gravadora: Universal Music
Gênero(s): Metal Industrial, gothic metal
Produção/Mixagem: Olsen Involtini
Capa: Byan Adams
Por: Cléber Vinhoza em 03/04/2022
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