Ensaios
Ensaios
Olá pessoas, recentemente reassisti "Edward Mãos de Tesoura" pela 74368234758769 vez e decidi escrever um ensaio sobre alguns temas abordados no longa pois, embora para quem nasceu nos anos 90 este filme possa parecer só mais um daqueles filmes clássicos da Sessão da Tarde, talvez ele tenha mais camadas do que pareça.
O texto a seguir contém spoilers do filme Edward Mãos de Tesoura.
"Edward Mãos de Tesoura" e a solidão
Edward ostentando suas "mãos de tesouras"
"Edward Scissorhands" (no Brasil "Edward Mãos de Tesoura") é um filme de 1990 escrito e dirigido por Tim Burton com roteiro de Caroline Thompson e estrelado por Johnny Depp e Winona Ryder, com trilha de Danny Elfman. A história é uma fantasia gótica sobre Edward, a criação de um velho inventor, que mora em um castelo de arquitetura claramente influenciada pelo expressionismo alemão (movimento artístico esse, aliás, que permeia quase toda a obra de Tim Burton). Após a morte de seu criador, Edward passa a viver sozinho no castelo, até que uma vendedora de cosméticos bate em sua porta e transforma sua vida. A vendedora, chamada Peg Boggs, leva Edward, de seu castelo para o bairro onde morava, um lugar que mais parece ter saído de uma sitcom americana com casinhas coloridas e famílias vivendo o estilo de vida americana onde todo mundo parece simpático a primeira vista, porém se mostram rasos a medida que Edward passa conviver com eles.
No início a excentricidade de Edward parece chamar atenção das pessoas que, por curiosidade, começam a se aproximar dele e é aqui que vemos a primeira nuance do filme. Edward tem um elemento bizarro ao mundo real: como seu inventor morreu antes de finalizá-lo, o rapaz possui tesouras no lugar das mãos, mas não é só isso que torna Edward estranho ao ambiente. Ele usa vestimentas góticas de couro e metal e um cabelo que lembra Robert Smith, vocalista da banda The Cure que, por sinal, foi a mesma inspiração para Neil Gaiman criar o Morpheus de "Sandman" (no final dos anos 80 e começo dos 90 a cena new wave/post punk estava com tudo). Junto a sua pele pálida ele cria uma imagem que a princípio parece não ser muito receptiva em comparação com os moradores do bairro que usam roupas coloridas, sempre querem estar com o penteado da moda, dão valor exacerbado a futilidades como produtos de beleza e moram em um monte de casas muito parecidas numa tentativa de seguir padrões.
Edward e seu inventor (Uma clara inspiração em Frankenstein)
Ao longo do filme Edward passa por várias situações desastrosas e desagradáveis numa tentativa frustrada de se adaptar aos novos vizinhos (colocam até uma camisa social nele), mas como se pode imaginar, no final do filme, Edward retorna frustrado para seu castelo solitário para passar o resto de seus dias fazendo o que faz de melhor, que é fazer esculturas de gelo e podas de arbustos. Um outro fator interessante sobre o filme é que, independente se ele foi visto em 1990 ou ontem, ele continua sendo compreensível e Edward segue sendo um personagem pelo qual as pessoas podem se espelhar devido a natureza universal que o tema do filme aborda: a solidão. Solidão essa que, em 1851 teve uma tentativa de explicação por parte do alemão Arthur Schopenhauer, um dos maiores filósofos da história, em sua obra "Parerga und Paralipomena" onde o mesmo conta uma parábola. O dilema do porco-espinho.
"Um número de porcos-espinho se amontoaram buscando calor em um dia frio de inverno; mas, quando começaram a se machucar com seus espinhos, foram obrigados a se afastarem. No entanto, o frio fazia com que voltassem a se reunir, porém, se afastavam novamente a medida que se machucavam com os espinhos. Depois de várias tentativas, perceberam que poderiam manter certa distância uns dos outros sem se dispersarem". Tal parábola é uma metáfora à necessidade biológica humana de se relacionar com outras pessoas ao passo que elas tem outras maneiras de enxergar a vida, outras rotinas e outras opiniões. A necessidade de se relacionar acaba fazendo necessário abrir mão de parte de quem somos.
É interessante notar como filosofia e biologia se misturam aqui, uma vez que a necessidade de estar próximo aos outros é decorrente diretamente da nossa evolução como uma espécie social onde um indivíduo estar junto de outros de sua espécie trás o benefício próprio da segurança. Na pré-história, os humanos que se dispersavam de grupos acabavam morrendo devido à vulnerabilidade diante da natureza implacável, tal como ainda acontece com outros primatas de grande porte como chimpanzés. O problema é que mais uma vez, tal como acontece com os chimpanzés, a seleção natural fez com que sobrevivessem os indivíduos que tem mais talento para a socialização, para a política, para a comunicação. E é exatamente aí que entra o conflito filosófico nascido da deficiência de socialização encarada por alguns indivíduos da espécie, gerando sofrimento e dificuldade de se relacionar com outro que, embora da mesma espécie, oferecem uma complexidade muito grande de variações de comportamento uma vez que a espécie humana também evoluiu a consciência e, com ela, o pensamento simbólico gerando ideologias, religiões e pscologias distintas.
Edward e Kim (em um conto de fadas eles viveriam juntos para sempre)
Em seu livro "O dilema do porco-espinho: Como encarar a solidão" de 2018, publicado pela editora Planeta, o historiador e filósofo brasileiro Leandro Karnal sugere a ideia de solitude. Palavra essa que se refere ao conceito de estar sozinho, porém ausente do sentimento de vazio e sofrimento que a palavra solidão carrega. Embora a palavra seja antiga, ela se refere a um comportamento muito contemporâneo que tem sido encarado como uma solução para os problemas da sociedade líquida do século XXI, onde nenhuma relação é sólida. Esta filosofia parece ir de encontro ao velho conceito oriental taoista que Sidarta Gautama, o Buda histórico chamou de "o caminho do meio" onde, a fim de escapar do sofrimento, deve-se buscar completar-se a si próprio pois o apego gera sofrimento. Seguindo por esse caminho, talvez Edward esteja mesmo melhor esculpindo seus belos anjos de gelo em seu castelo do que se esponto a toda maldade que lhe foi proporcionada no pouco tempo de convivência com os outros.
Trilha linda e clássica do filme composta pelo lendário Danny Efman
Por: Cléber Vinhoza em 01/08/2022
Continue lendo:
Sobre o blog:
Olá pessoas, criei este blog com o intuito de compartilhar com vocês, leitores, parte do meu trabalho como escritor, além de ser um meio de divulgação de projetos futuros. Não deixem de favoritar o site no seu navegador padrão para estar sempre visitando e se atualizando do conteúdo do mesmo. O site é abastecido diariamente com ensaios reflexivos sobre temas variados (incluindo análises de filmes e séries), crônicas, resenhas sobre trabalhos musicais de artistas diversos, curiosidades, oficinas de leitura e playlists de História e top 10. Por: Cléber D. Vinhoza.