Ensaios
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Olá pessoas, estou numa vibe de assistir muitos filmes de terror psicológico, por isso quero falar sobre "Midsommar". Pode parecer óbvio, mas é sempre bom deixar claro que os ensaios do blog contém spoilers das obras das quais eles tratam.
Midsommar e o signo da vingança
Florence Pugh em mais um ótimo papel e mais uma brilhante atuação
Ari Aster é, juntamente com Robert Eggers ("A bruxa"; "O farol"), um dos principais expoentes do terror na atualidade, tendo lançado o bem sucedido "Hereditário" em 2018. Após este, foi-lhe apresentado um projeto para o lançamento de um filme de terror relacionado a um culto pagão escandinavo, o qual Aster aceitou, porém fazendo modificações do roteiro, deixando a deterioração psicológica da jovem Dani (Florence Pugh) em destaque como tema principal do filme.
E é nesta escolha que o filme brilha, pois se o terror já experimentou diversas roupagens ao longo do último século, passando pela fase do terror gótico expressionista, do terror fantástico e sobrenatural e do realismo dos serial killers, a nova bola da vez em um mundo de tantos transtornos mentais é o terror psicológico. Este novo gênero vem brilhando nas salas de cinema entre os especialistas e críticos de cinema devido a mudança de direcionamento do agente do terror em si. Se no terror sobrenatural são demônios ou assombrações que causam terror e nos filmes de serial killers são os assassinos, nos filmes de terror psicológico a famosa frase da peça de Jean-Paul Sartre, "o inferno são os outros", perde efeito, pois aqui, o inferno somos nós mesmos. Ou melhor, nossa mente.
"O poço" aborda a incompetência humana em construir uma sociedade justa mesmo nos considerando civilizados, o que deteriora as personagens mentalmente. Esta mesma corrupção psicológica pode ser vista nos, já citados, "O farol" e "A bruxa" de Eggers, onde no primeiro a desconstrução da mente do protagonista se faz pelos abusos de seu superior em um lugar claustrofóbico onde ele não queria estar e, no segundo, são os problemas familiares e o fanatismo religioso de sua família que torna a vida da protagonista maçante, fazendo-a pender para o outro lado. Perceba que em todos esses casos o terror não é necessariamente o agente esterno, embora o mesmo seja decisivo, mas a maneira como as personagens resolvem lidar com suas dores, transtornos e traumas.
Este quadro aparece logo no início do filme e dá todos os spoilers, mas ninguém percebe
Em "Midsommar", Dani sofre de depressão. A jovem é órfã, e vive assombrada pelo pesadelo que vivenciou de sua irmã bipolar ter cometido suicídio após matar seus próprios pais. Ela busca conforto em seu namorado Christian (Jack Reynor), que se sente sobrecarregado de ter que lidar com a insegurança da namorada. Em resposta a isso, decide ir com seus amigos Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter) para a Suécia, onde Josh pretende escrever sobre um culto pagão que assistirão à convite de Pelle (Vilhelm Blomgren), um amigo sueco que faz parte desta religião. Dani acaba indo junto à convite de Pelle, o que deixa Christian um pouco desconfortável durante toda a viagem e Dani percebe isso reagindo com ansiedade e se desculpando o tempo todo como se tentasse a todo custo fugir de um término inevitável por depender psicologicamente de Christian, que está cada vez mais distante.
O que parecia ser um festival folk de hippies dançando com flores na cabeça, começa a tomar proporções cada vez mais macabras a medida que a religião se mostra ser, na verdade, um verdadeiro culto pagão que vê a morte como uma passagem e a vida como um estágio intermediário, com direito a rituais vikings antigos como a águia de sangue, que consistia em abrir as costas da vítima ainda viva expondo seus pulmões. Ao longo do inferno e espiral de loucura que o lugar vai se tornando a medida que o filme avança e os amigos do casal vão morrendo um a um, Dani se vê cada vez mais perdida até que em meio a um ritual de coroação onde ela foi escolhida a "Rainha de Maio", ela se depara com seu namorado Christian tendo relações sexuais com uma das cultistas do vilarejo. Ela berra desesperada em um verdadeiro signo de ritual de expurgo de sua depressão e dor.
O grande momento do filme é quando, por ser a rainha de maio, Dani pode escolher entre sacrificar Thorbjörn, um dos cultistas, ou seu namorado Christian, para ser sacrificado como parte final do ritual de expurgo do mal. Dani escolhe Christian em um ato de vingança e o assiste queimar preso no templo em chamas. O longa fala sobre muitos temas, como o fanatismo religioso e a perda mas, sem dúvidas, o principal tema do filme acaba sendo a fidelidade. Ari Aster, diretor do longa, experimentou um fim de relacionamento conturbado e muito de seus sentimentos estão presentes em Dani e na maneira como o abandono de uma pessoa com depressão e ansiedade pode deixar tudo ainda mais traumático. "Midsommar", diante de um plot de filme de terror sobre paganismo escandinavo, tinha tudo para ser um filme B com um grupo de amigos americanos tentando fugir de um culto estrangeiro maluco em um clichê hollywoodano de filme de terror, mas encontrou no terror psicológico de Ari Aster o desenvolvimento de personagem suficientemente satisfatório para o tornar mais um neoclássico dessa nova onda do terror que parece ter vindo para ficar.
Pôster do filme
Por: Cléber Vinhoza em 23/05/2022
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