Ensaios
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Olá pessoas, vocês já viram o filme "Os Cavaleiros do Zodíaco: Prólogo do Céu"? Hoje vamos destrinchar e discutir os temas abordados na obra e o por quê deste filme ser tão distinto a tudo que já foi feito com a franquia "Saint Seiya". Então fiquem ligados caso não tenham assistido ainda, porque o texto contém spoilers de "Prólogo do Céu".
Por que o "Prólogo do Céu" é tão diferente?
Apolo, o deus do sol na mitologia grega, irmão gêmeo de Arthemis
Em sua obra "Arte Poética", o filósofo grego Aristóteles definiu a literatura clássica, da época, em três gêneros principais, sendo eles os gêneros dramático, lírico e épico. O gênero lírico seria os dos poemas tradicionais, onde um eu lírico fala, geralmente de si, em primeira pessoa expondo seus pensamentos e/ou sentimentos de forma a criar efeitos poéticos. O gênero dramático se subdividia entre a tragédia, obras narrativas geralmente de finais não felizes aos protagonistas, e comédias que, ao contrário do que se pode pensar, não tinha necessariamente a função primordial de causar o riso, mas se distinguia da tragédia por abordar as ocasiões de maneira mais leve, geralmente levando a um final feliz. O último gênero seria o épico. Nos épicos da antiguidade se destacam as epopeias, poesias épicas narradas em terceira pessoa contanto as sagas de um grande herói. Exemplos desse gênero na Grécia Antiga são as epopeias "Ilíada" e "Odisseia", ambas do poeta Homero.
Com o passar dos séculos a literatura evoluiu e novos gêneros foram forjados fazendo da distinção de Aristóteles uma análise obsoleta. Contos, novelas, romances e novos subgêneros da poesia, como a ode, o soneto, a trova, o haikai e até a poesia em prosa surgiram no meio literário tradicional e, ao passo que a narrativa texto-visual se desenvolveu levando aos quadrinhos modernos, que misturam elementos de narrativa literária com a comunicação simbólica da arte plástica, novos subgêneros surgiram, não apenas para demarcar as diferenças na narrativa e estrutura do texto, mas para separar as obras por público alvo. Um exemplo disso são a forma como os mangás são subdivididos no Japão. O kodomo, por exemplo é voltado para crianças, o shoujo para adolescentes do sexo feminino, o josei para mulheres adultas, o seinen para homens adultos e os shonen, voltados para adolescentes do sexo masculino.
A este último gênero, o qual se destacou no ocidente em decorrência da venda de animações que adaptavam mangás pertencentes a ele, se destacam as caraterísticas do arquétipo da jornada do herói e o tema do adolescente masculino em ritual de passagem se provando valoroso. É a esse gênero que pertence "Os Cavaleiros do Zodíaco", mangá escrito por Masami Kurumada, que narra as aventuras de cinco jovens guerreiros que, com a ajuda de suas armaduras, tem a missão de proteger a reencarnação da deusa grega, padroeira da Terra, Athena. O protagonista da obra Seiya de Pégaso (o qual o nome de guerra referencia sua constelação protetora) é um herói, aos moldes gregos, valoroso e incorruptível que encontra na inspiração divina a força necessária para vencer seus obstáculos, tal como fez Aquiles na Guerra de Tróia narrada por Homero na "Ilíada".
Seiya de Pégaso, o arquétipo do herói de epopeia grega aristotélica à la Aquiles da "Ilíada" de Homero
A jornada do arquétipo do herói valoroso em um épico em busca de se igualar os deuses, torna "Os Cavaleiros do Zodíaco" (ou "Saint Seiya" no título original, que em tradução livre significa Santo Seiya ou São Seiya) uma perfeita homenagem ao gênero épico. A narrativa permeia a clássica epopeia grega ao longo de toda a obra, passando pela jornada das dozes casas, a batalha contra Poseidon no reino dos oceanos e a descida ao Inferno de Hades para resgatar Athena ao melhor estilo de Dante Alighieri. Entretanto algo inusitado acontece após a saga de Hades: um filme, originalmente canônico, foi feito em 2004 titulado "Prólogo do Céu", em alusão a uma futura saga que se passaria após o filme onde os heróis deveriam subir o Monte Olimpo para enfrentar Zeus e os deuses olímpicos. Entretanto o mal entendimento do público em relação à obra e a ira de Kurumada levaram o filme a ser descanonizado.
O primeiro motivo foi o fato de o filme não ser um shonen, como o restante de toda a obra de "Os Cavaleiros do Zodíaco", mas sim um seinen, fazendo a obra abordar temas adultos como a perda da fé, a depressão e niilismo e a benevolência dos deuses e sua utilidade para a humanidade. "Os Cavaleiros do Zodíaco: Prólogo do Céu" é uma obra adulta, coesa em sua narrativa e ciente da história que quer contar o dos temas que quer abordar. Quando a deusa da Lua Arthemis vem à Terra reclamar o mundo de sua irmã Athena, os arcanjos guerreiros da deusa ameaçam matar os enfraquecidos cavaleiros de Athena, devido a batalha contra Hades no submundo. Em resposta à isso Athena renega seu reinado sobre a Terra em troca de que seus cavaleiros não sejam mortos por terem desafiado os deuses e, então a deusa vai até um santuário de águas límpidas expiar seus pecados com sangue. Somos então, submergidos em um dilema moral jamais explorado antes na trama onde o papel dos deuses é colocado em questão: Os homens existem para servir aos deuses adorando-os, ou os deuses existem para rogar pelos homens com seu poder e misericórdia? Seiya renega os deuses gregos por considerá-los caprichosos e não zelarem pela humanidade.
O segundo motivo foi a mudança de gênero, não apenas de mangá, mas aristotélico. Se a maior parte da obra de "Saint Seiya" é um épico grego, "Prólogo do Céu" pertence ao gênero dramático, sendo mais precisamente uma tragédia. Ao contrário de outros shonens famosos que preenchem as cenas de não ação com comédia e bom humor, "Os Cavaleiros do Zodíaco: Prólogo do Céu" não faz questão nenhuma de conter cenas de alívio cômico, mantendo a tenção alta o filme inteiro. Ao longo de todo o filme, Seiya se encontra enfraquecido devido a falta do poder de Athena e vemos o, até então, herói invencível que derrota até um deus com o poder do protagonismo, completamente fragilizado e desnudo de esperanças e sonhos (o filme começa com Seiya catatônico em uma cadeiras de rodas). Mesmo assim, Seiya se ergue e segue motivado apenas pela necessidade de rever sua amada deusa até que chega ao santuário onde Athena está sangrando até a morte.
Templo de Athena se transformando após a posse de Arthemis. Perceba como a trivial construção humana de pedra dá lugar ao etéreo cenário de inspiração divina, aqui representado pela água (signo de purificação) e por espelhos, dando uma atmosfera lúdica e deífica
Neste momento um recurso do teatro grego tradicional é posto em prática às avessas: O Deus Ex Machina. Na Grécia Antiga era comum que nas peças de teatro que, quando uma situação parecia insolucionável pelo protagonista da trama, um guindaste descesse um ator interpretando um deus que resolveria o problema do herói. Daí o nome deus ex maquina, que em latim significa literalmente deus surgido da máquina (o guindaste). Aqui, Seiya encontra Athena e após um diálogo, os dois recuperam suas esperanças e decidem juntos enfrentar Arthemis e seu exército de arcanjos, mas como essa obra é uma tragédia e não uma comédia eis que surge do nada como um deus ex maquina: o deus Apolo, não para salvar Seiya e Atena mas para ajudar Arthemis. Seiya argumenta com Apolo que os deuses deveriam perdoar e zelar pela humanidade, mas Apolo se põe como ser superior e diz que cabe aos humanos apenas adorar aos deuses. Diante desse quadro Seiya consegue ainda desferir um único golpe no deus arranhando-o para provar que um humano esteve na morada dos deuses e até feriu um, mas logo após isso a tela apaga e vemos uma cena de Seiya viajando encontrando Athena, aparentemente com a memória apagada. Hoje sabemos que na continuação no mangá "Next Dimension", Kurumada resolve isso com universos paralelos, mas na época ninguém entendeu o final do filme.
O Japão é um país majoritariamente budista, e nesta religião se prega o homem como seu próprio mestre, pois não há deus no budismo, e a mensagem do filme fica clara quando Seiya dispara um golpe que acerta a face de Apolo. A tela fica preta e uma mensagem aparece na tela com as inscrições: "Quando o coração humano supera os seres divinos, o que os deuses vão perdoar? E o que eles vão castigar?". No mais, é realmente uma pena que as ideias inseridas em "Prólogo do Céu" não tenham dado resultado financeiro satisfatório pois a mudança de tom e abordagem parece ter caído como uma luva para "Os Cavaleiros do Zodíaco", uma franquia que se negou a inovar e se renovar e, hoje, vive de spin offs da série principal.
"-Espero que encontre a pessoa que está procurando"
Por: Cléber Diniz em 13/04/2022
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