Ensaios
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Olá pessoas, se tem um jogo que, durante minha infância eu queria jogar mas ele ainda não existia, sem dúvidas é "Ghost of Tsushima". Me lembro de, na primeira vez que vi o trailer do game ter pensado: "É isso, é assim que sempre imaginei um perfeito jogo de samurai", e para meu deleite o jogo saiu, eu joguei e foi muito bom. Entretanto não vim aqui hoje para escrever sobre os aspectos técnicos do jogo e sim sobre os elementos narrativos refletidos da história do Japão que compõe o enredo da estória contada no jogo.
Atenção: O texto a seguir contém spoilers de Ghost of Tsushima.
A honra em Ghost of Tsushima
O Brasil pode ser uma instituição antiga se comparado aos atuais Estados europeus reformulados após o final da Segunda Guerra Mundial e alguns surgidos até nos anos 90 e 2000, mas quando falamos de nação, de história de um povo homogêneo que compreende fazer parte de uma sociedade e do significado de cidadania, poucos nações no mundo são tão antigas quanto a japonesa.
Tal ancestralidade na linhagem da organização e hegemonia de liberdade perante o controle de outras nações, deu ao povo japonês uma larga margem evolutiva no que diz respeito ao desenvolvimento de tradições ligadas a conceitos enraizados em aspectos de sociologia, filosofia e cidadania. Enquanto em muitas nações ocidentais se lida com fantasmas de correlação entre o patriotismo e a sensação de pertencimento e amor à sua Terra e seu passado recente sangrento e vergonhoso, como parece assombrar até na hora de cantar o hino de seu país com orgulho como o caso dos alemães ou como, no caso, do Brasil que vive eternamente a "síndrome do país tropical" que tem todos os recursos naturais possíveis para ser uma nação desenvolvida mas esbarra no problema de ser uma nação que não possui unidade, o japonês parece ir numa linha inversa.
Por ser uma sociedade muito antiga, o Japão já passou pela fase de formação da nação, de absorção de cultura de outros povos, de lutas por independência, por separação do que se julga bom absorver de outros povos para o desenvolvimento da cultura e do que se julga nocivo, de conflitos internos e guerra civil, de enraizamento de uma cultura mais homogênea, de discussões sobre qual o melhor modelo de Estado e da manutenção de uma educação rígida para que as gerações mais jovens entendam e continuem o modelo social japonês.
Samurai, o guerreiro japonês
Uma das maiores tradições do povo japonês, sem dúvidas, é a cultura de guerra que gira em torno do conceito de honra e respeito pelo seu adversário ou inimigo. Isso se traduz na cultura samurai pelo Bushido (武士道 ) que é o caminho do guerreiro: um código de conduta moral de como os samurais devem viver e morrer respeitando e honrando as tradições de fidelidade, respeito, sacrifício, humildade, compaixão, dignidade, honestidade e justiça.
E essa é a base necessária para compreender os conflitos vistos em "Ghost of Tsushima", pois um samurai não ataca seu inimigo pelas costas, não arma arapucas, não trai e sempre enfrenta seu inimigo de frente e com honra. O problema é que os inimigos dos samurais japoneses que defendiam a ilha de Tsushima ao sul do Japão eram estrangeiros, mais precisamente os conquistadores mongóis liderados por ninguém mais, ninguém menos que o neto de Genghis Khan, Khotun Khan.
Os mongóis seguiam uma filosofia e código de conduta diferente dos japoneses, eles apreciavam a chamada "arte da guerra", que basicamente consistia em estudar seu inimigo e usar suas fraquezas contra eles próprios. Quando Khotun chega em Tsushima nos deparamos com, primeiro: um homem que fala japonês fluentemente e parece conhecer muito bem as tradições e códigos de conduta dos japoneses, e segundo: um guerreiro nem um pouco preocupado em lutar seguindo o código japonês uma vez que o que vemos é um homem fazendo o necessário para conquistar, mesmo que isso consista em atacar pelas costas, persuadir, mentir, subornar e até cometer atos de covardia.
Kothun Khan, o líder mongol
Diante de uma derrota derradeira na praia que faz as tropas do exército de Kothun se espalharem por toda a ilha, Jin Sakai, o protagonista da história, percebe que seguindo as tradições os samurais não conseguirão derrotar os mongóis e então abandona sua armadura para viver nas sombras como um ninja. Ele começa a criar uma lenda em torno de si com o povo da ilha e com os inimigos causando medo nos mongóis e esperança nos moradores de Tsushima.
Após uma árdua jornada para reunir aliados, abrir caminho até o castelo e enfrentar os inimigos para libertar seu tio Lorde Shimura , nos deparamos com uma cena muito emocionante onde, após se tornar um herói que libertou o Japão da invasão, Jin deve enfrentar os dogmas e tradições de seu próprio povo, que o levam a ser forçado a enfrentar seu próprio tio em um duelo que vale sua honra.
Diante de toda a lágrima derramada e sofrimento vemos seu tio, ainda sim, não hesitar em enfrentar seu próprio sobrinho (o qual ele prometeu adotar como filho) o que simboliza toda a rigidez da cultura japonesa. A luta ali não era somente pessoal, era uma luta para manter os princípios sociais, para dar o exemplo aos cidadãos. Moral da história? Não há moral se não a reflexão de qual o limite entre viver em uma sociedade e compreender os efeitos disso em nossa vida nos obrigando a cometer sacrifícios no âmbito pessoal e a liberdade de expressão e de viver de cada ser.
Por: Cléber Diniz em 21/04/2021; Imagens: Divulgação
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