Ensaios
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Olá pessoas, como ainda estamos no hype do novo filme do Batman ("The Batman" no original e "O Batman" no Brasil), hoje vamos refletir a respeito de algumas ideologias e ideias abordadas no longa do Homem-Morcego. Vale sempre a pena lembrar que, se você gosta do conteúdo do blog, você pode apoiá-lo indicando-o para um amigo e seguindo-o nas redes sociais. Os links para as redes sociais do blog estão no rodapé da página.
É importante ressaltar também, que o texto a seguir pode ou não conter spoilers de "The Batman", sendo assim, é recomendável a leitura apenas após ter assistido ao filme.
As motivações do Batman
Arte promocional do filme "The Batman"
Desde seu surgimento na Dectetive Comics #27 de maio de 1939, criado por Bill Finger e Bob Kane, o Batman sofreu diversas repaginações e reinterpretações ao longo de seus 83 anos de história. De vigilante matador para um super-herói inocente, de super-herói para personagem cômico o e de personagem cômico para vigilante não-matador.
O personagem surgiu como encomenda de um super-herói que repetisse o sucesso que o Superman fazia nos quadrinhos da época, mas os criadores do Batman tiveram outras inspirações: o Sombra e o Zorro, ambos vigilantes de preto que saiam a noite para combater o crime mascarados. Como esses personagens de novelas de rádio e literatura tradicional usavam armas de fogo e, na época (tempos de guerra), isso não era uma questão, o Batman usava armas para derrotar seus inimigos.
A primeira reformulação do personagem veio com o fim da guerra e o alvorecer de uma nova era de reforçamento do conservadorismo nos Estados Unidos em oposição a forte crescente da esquerda e do liberalismo anti-guerra e/ou pró-comunismo. Isso resultou numa pressão para a criação de um selo de censura para quadrinhos chamado Comic Code Authority, influenciado pelo livro Seduction of the Innocent, do psiquiatra alemão Fredic Wertham. A partir dai os quadrinhos do Batman deixaram o teor sombrio e gótico de lado dando lugar a uma roupagem muito mais infantil.
Com a chegada da série de TV em 1966, o personagem ficou mais cômico e essa era do Batman, como um personagem que não se levava a sério, durou até que no início do ano de 79, Dennis O'Neil assumiu os roteiros do personagem trazendo de volta seu tom sombrio, além de recuperar o clima noir de histórias de detetive que o personagem tinha originalmente na Detective Comics. O estabelecimento desse estilo para o Batman veio definitivamente com os quadrinhos do Batman feitos por Alan Moore e por Frank Miller nos anos 80 e pelo filme Batman de Tim Burton de 1989.
Frank Miller foi o responsável por escrever "O Retorno do Cavaleiro das Trevas", quadrinho não canônico que abordava um futuro onde, após uma lei que proibia super-heróis, o Batman, agora na casa dos 60 anos, voltava a ativa influenciado por seu desejo quase neo-nazista de limpar as ruas de toda a sujeira e bandidagem. Essa versão do personagem, claro, era severamente influenciada pelo posicionamento político do próprio autor que sempre se mostrou conservador extremo. Enquanto que o Batman de Moore em "Batman: A piada mortal" é retratado como sendo mais um dos loucos de Gotham que saem às ruas fantasiado de morcego para fazer justiça com as próprias mãos, visto o posicionamento político do escritor que sempre se posicionou como de extrema esquerda.
No cinema o personagem foi trazido à vida primeiro por Tim Burton, um diretor conhecido por seu estilo gótico influenciado pelo expressionismo alemão, que casou perfeitamente com o personagem nos filmes "Batman" (1989) e "Batman: O Retorno" (1992). Infelizmente Burton acabou sendo substituído como diretor antes que pudesse concluir sua trilogia de filmes, por pressão dos patrocinadores que queriam uma roupagem mais infantil para os longas do Batman rementendo à série de TV de 66, chamando para dirigir, Joel Schumacher, que fez "Batman: Eternamente" (1995) e "Batman & Robin" (1997) que acabou afundando a franquia do personagem nos cinemas por oito anos.
O ator Robert Pettinson interpretando Bruce Wayne, a identidade secreta do Batman
Para corrigir tal lambança, foi escolhido Christopher Nolan, um dos maiores e melhores diretores da atualidade, responsável por obras-primas como "A Origem" e "Interestelar", que até então tinha feito o ótimo "Amnésia", chamando a atenção dos produtores da Warner Bros. Em 2005 estreou "Batman Begins", que foi um sucesso de crítica e público, trazendo uma versão mais realista e sombria do personagem. O sucesso rendeu duas continuações: "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" (2012), encerando a trilogia.
A ascensão da MARVEL Studios com seu universo cinematográfico compartilhado entretanto, fez a Warner desejar ter também o seu universo compartilhado e para isso uma versão realista do Batman não seria muito bem recebida, já que o Batman precisaria contracenar com "deuses" como Superman e Mulher Maravilha. Para essa missão foi escolhido Zack Snyder, diretor que vinha em ascensão em Hollywood por filmes de quadrinhos bem recebidos como "300" (2006), adaptando um quadrinho de Frank Miller, "Watchman" (2009), adaptando um quadrinho de Alan Moore e "Homem de Aço" (2013), dando uma nova roupagem ao Superman.
O Batman de Snyder acabou sendo duramente criticado por, apesar de ser sombrio, trazer de volta o uso de armas de fogo pelo personagem, que já havia se enraizado na cultura pop, como um personagem com aversão a armas de fogo. O Batman de Nolan era então, até o momento, o que mais se aproximava da essência do personagem nos quadrinhos, com seus conflitos existenciais e o desejo inicial de vingança contra Falcone dando lugar a um senso de justiça mais universal. Sendo assim, "The Batman" de 2022, dirigido por Matt Reeves de "Planeta dos Macacos", tinha a missão de, ao contrário do Nolan que deveria reerguer o personagem após um fracasso ou estabelecer o personagem como Burton, dá seguimento ao trabalho desses anteriores com a pressão de fazer um que, se não fosse tão bom quanto um "Cavaleiro das Trevas", ao menos respeitar o personagem e não deixar a peteca cair novamente.
De início, o filme teve uma série de reclamações na internet por conta da sua escolha de atores a medida que a pré-produção iria sendo divulgada pelos veículos de imprensa, em grande parte motivadas pela escolha do ator Robert Pettinson, muito conhecido por ter feito "Crepúsculo" (2008) apesar de ter feito recentemente filmes sérios como "O Farol" (2019) do excelente diretor Robert Eggers de "A Bruxa" (2015), mas a maior preocupação dos fãs era como o personagem seria retratado filosoficamente a medida que novas informações iam surgindo sugerindo que o personagem seria um vingador raivoso com tendências suicidas.
Para a sorte dos fãs, os mesmos podem respirar aliviados. "The Batman", não só é um filme sério, sombrio, gótico e detetivesco, como também respeita profundamente a essência do personagem uma vez que, apesar de não ser uma história de origem como "Batman Begins", traz um jovem Bruce Wayne, em seu segundo ano como Batman, enfrentando não só os psicopatas e mafiosos de Gotham, como também seus conflitos internos, ainda muito ressentido pela perda de seus pais. Mas o filme não afunda o personagem em suas próprias melancolias e, ao invés disso, traz um desenvolvimento de personagem onde, assim como em "Batman Begins", Bruce percebe que o Batman é muito mais que um símbolo de vingança. Para os moradores de Gotham, o Batman é uma esperança, uma esperança de justiça.
"Batman: O Cavaleiro das Trevas" de Nolan já havia feito um grande acerto ao trazer o que de melhor o personagem pode oferecer de carácter na icônica cena em que, após usar o sistema de segurança da polícia para ter acesso à todas as câmeras públicas da cidade para encontrar Coringa à qualquer custo, o personagem manda que Lucius Fox destrua todo o sistema ao invés de tornar aquilo seu império neofacista de vigilância pública doentia passando uma clara mensagem do que define o Batman enquanto personagem: alguém radical o bastante ao ponto de passar por cima das leis para alcançar seus objetivos, porém, tendo a ética e a moral inabaláveis que é exatamente a linha tênue que o separa dos ladrões, assassinos, psicopatas e corruptos de Gotham. Essa cena é puro ouro de roteiro.
Em "The Batman", temos um Bruce Wayne em seu segundo ano como o detetive mascarado enfrentando os conflitos internos do passado de sua família e seu, suposto, envolvimento com as famílias mafiosas de Gotham, inflamadas pelo Charada. Matt Reeves, a exemplo de Nolan, parece também entender perfeitamente a essência do personagem o separando de forma muito sutil dos demais loucos da cidade, embora ele seja frequentemente chamado por esse adjetivo pelos policiais, moradores, políticos e bandidos da cidade. O personagem apresenta ao longo do filme, enquanto lida com seus conflitos internos e externos, uma curva dramática de desenvolvimento muito tênue uma vez que começa o longa como um símbolo de vingança diante da herança de Miller, e termina como um símbolo de esperança, de perseverança de que mesmo a cidade mais subdesenvolvida, violenta e corrupta do país pode ter um futuro melhor se o povo acreditar nisso, e ao melhor estilo "V de Vingança", o Batman se ergue ao final levando consigo aqueles que farão, de fato, a mudança acontecer. Um belo desfecho para um longa, que pode ser um novo recomeço ideológico para um personagem já muitas vezes tão mal tratado.
Pôster de The Batman (2022)
Por: Cléber Vinhoza em 14/03/2022
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