Artes Plásticas
Artes Plásticas
Olá pessoas, hoje vamos investigar mais uma obra de arte plástica, assim como fizemos com A grande onda de Kanagawa, cuja matéria está nas sugestões no final da página. Se você é como eu e também gosta de arte plástica, literatura, música e cinema, não deixe de estar sempre revisitando o blog, pois ele está mais vivo do que nunca. Compartilhe também com seus amigos para que mais pessoas possam conhecer meu trabalho.
O inferno no século XVI
O Inferno - Pintura à oleo do século XVI de pintor protuguês desconhecido
Na maioria das religiões ocidentais monoteístas ou politeístas, existe o conceito de um mundo dos mortos, mas nem em todas, este mundo (ou reino em algumas fontes) é um lugar de sofrimento. Na religião helenística antiga, os gregos acreditavam que, após a morte, as pessoas iam para o Reino de Hades, levadas pelo deus Hermes, que as deixava nos cais do rio Aqueronte, de onde seguiam com o barqueiro Caronte até a entrada do submundo, guardado por um demônio chamado Cérbero, para que as almas não pudessem mais retornar. Lá as almas eram julgadas pelos três juízes do inferno: Éacos, Radamantis e Minos. Se as almas fossem julgadas virtuosas, iriam para os Campos Elísios, se fossem irrelevantes, ficariam vagando pelos Campos Asfódelos, e se tivesse, em vida, desrespeitado os deuses iriam para o Tártaro. O Tártaro, era representado pelos poetas como sendo um vale rodeado de fogo e um rio de lava fervente chamado Flagetonte, muito semelhante à ideia atual de Inferno cristão.
Na religião hebraica, é usada a palavra "sheol" para se referir ao submundo e muito comumente é traduzida como abismo ou profundezas. Quando o Torá foi traduzido do hebraico para o grego, essa palavra foi, na maioria das vezes, traduzida como Hades, o que preserva o conceito hebraico de que todas as almas vão para o sheol, sendo boas ou ruins. Próximo à Jerusalém, havia um vale chamado Geena onde, na antiguidade, eram jogados cadáveres de pessoas indignas, restos mortais de animais, além de servir como depósito de lixo e imundices, e o lixo era queimado com enxofre. Jesus usou Geena em seus discursos como analogia à perdição eterna no Novo Testamento. Quando o cristianismo cresceu no Império Romano, um monge chamado Jerônimo fez uma tradução de toda a bíblia do grego para o latim (língua oficial do Império Romano, na época) onde usou a palavra latina "Infernus" (Inferno) para traduzir o grego Hades. O problema é que a associação feita pelo monge do Tártaro grego com o hebraico Geena, o fez simplesmente traduzir para Inferno tanto Sheol ou Hades (submundo para onde todos vão após a morte) quanto Tártaro e Geena (lugar de sofrimento eterno), transformando tudo em uma confusão inacreditável.
A barca de Dante por Eugène Delacroix em 1822
Mesmo após a total cristianização da Europa e a queda do Império Romano do Ocidente, a forte influência de conceitos vindos originalmente da religião helenística continuou influenciando o conceito de Inferno. No século XIV, o poeta italiano Dante Alighieri escreveu a epopéia "A Divina Comédia", onde o protagonista acorda no Inferno e, guiado pelo poeta latino Virgílio, passa pelos nove círculos do Inferno, onde em cada círculo encontra pecadores de crimes distintos e quanto pior o pecado cometido mais baixo no abismo a pessoa estaria, sendo que no último círculo ficavam os traidores. Ali residiam os maiores traidores da história como Caim, Judas, Brutus, Cassius e Lúcifer. É interessante afirmar que, em "A Divina Comédia", Dante descreve o Inferno como tendo diversos elementos comuns ao Reino de Hades grego, que vão desde a presença de Cérbero no Inferno, até os nomes dos rios.
O sincretismo religioso entre cristianismo, mitologia grega e a imagem hebraica de demônios associadas às imagens de deuses sumérios e babilônicos influenciou a cultura popular de tal forma, que até os dias de hoje o Inferno é retratado como sendo um vale de fogo de sofrimento eterno, tendo Lúcifer como seu patrono, mesmo que descrito na bíblia como estando solto no mundo, possivelmente por sincretismo com o próprio Hades, deus grego rei do Inferno. Essa influência é largamente vista na arte do Renascimento, que vai muito além de Jeová retratado à imagem e semelhança de Zeus por Michelangelo em "A criação de Adão", chegando ao ponto de o mesmo retratar os três juízes gregos do Hades em sua pintura "O Juízo Final" em plena parede da Capela Sistina, possivelmente influenciado pela imagem medieval do Inferno de Dante, que por sua vez, tem origem do sincretismo nascente do processo de cristianização do Império Romano durante o reinado de Constantino que, vendo o crescimento do cristianismo no império foi obrigado a tentar agradar os politeístas helênicos e os monoteístas tanto cristãos quanto zoroastristas criando correlações de feriados e festividades santas dessas religiões.
O juízo final por Michelangelo de 1535 a 1541
Com o fim do Império Romano do Oriente e o fechamento das rodas europeias para o extremo oriente, após o conquista de Constantinopla pelo Império Turco-Otomano em 1453, e o avanço do islamismo pelo norte da África, fizeram os europeus investirem cada vez mais em navegações buscando rotas marítimas, que iam desde dar a volta pelo sul da África, até tentar se aventurar pelo Atlântico, para quem sabe, assim chegar ao Oceano Pacífico e, consequentemente, ao Japão. Esses esforços marítimos foram recompensados com a descoberta e conquista da América e África respectivamente, além da conquista de territórios na Ásia. Sob o fervor do Renascimento na Europa neste mesmo período, em que os artistas buscavam reviver a arte helênica e latina do período clássico pré-Idade Média, há uma pintura, em particular, de um pintor português desconhecido que é bem reveladora sobre a moral europeia da época.
De nome "O Inferno", esta pintura data do início do século XVI, mais precisamente entre 1510 e 1520, mas só foi descoberta em 1834, após ter sido escondida no acervo do Convento de São Bento da Saúde e ainda hoje não se sabe quem a pintou. A pintura apresenta cristãos sendo punidos por demônios pelos sete pecados capitais em um Inferno medieval de fogo. É interessante notar, que o Inferno aqui, é retratado com elementos de culturas estranhas aos hábitos europeus, que vão desde a feição negroide e hermafroditismo dos demônios, até a representação do Diabo sentado em uma cadeira indiana, com uma trompa africana de marfim e uma coroa de penas de índios tupinambás brasileiros. Todos os pecadores sendo punidos no Inferno retratado na obra, são brancos europeus e a punição à eles infligida é a tortura. As técnicas de tortura apresentadas na obra eram usadas pelos monges beneditinos durante a Santa Inquisição, a fim de punir os inimigos da Igreja. Apesar da Inquisição ter acontecido durante toda a Idade Média pela Europa, em Portugal ela começou mais precisamente em 1536 a pedido do rei Don João III ao papa Leão X em 1515, motivado pelo antissemitismo, já que Don João III objetivava forçar os judeus de seu reino a se converterem ao cristianismo. Muito provavelmente esta obra foi escondida para não ser destruída pela Inquisição da época, uma vez que ela retrata católicos sendo punidos em um inferno onde os demônios são outros povos fazendo, assim, uma crítica contra a cristandade da época.
Por: Cléber Diniz em 01/04/2022
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